Sistema de bibliotecas da UFRN
Notícia
As cartas de Zila: fragmentos de sua personalidade guardados nos manuscritos 05/05/2017
Carta de Cascudo para Zila.
(Foto: Acervo da BCZM)

Por Tércia Maria Souza de Moura Marques e Margareth Régia de Lara Menezes.

Quando, no ano de 1987, a família Mamede doou à Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte a biblioteca particular de Zila da Costa Mamede, e com ela um enorme volume de manuscritos, permitiu à comunidade científica conhecer a bibliotecária e poeta, paraibana de nascimento e norte-rio-grandense por adoção, em sua singularidade.

Em meio ao volume de manuscritos, muitas cartas, tanto enviadas quanto recebidas, de amigos, de artistas, de editores, de pensadores notáveis e de poetas. As cartas enviadas, escritas em máquina datilográfica com carbono, pois como ela mesma em carta a Kátia Bento escreveu "se eu tivesse letra bonita, mandaria manuscrito. Mas quem sou eu: ninguém entende minha letra", foram guardadas ao longo de sua vida, demonstrando uma característica peculiar da bibliotecária e documentalista que a seguia em sua vida privada.

Suas cartas, manuscritas ou datilografadas, representam hoje mais que uma simples forma antiga e tradicional de comunicação. Representam a forma que ela usou, talvez inconscientemente, para demonstrar sua real personalidade, que difere da imagem mais conhecida, de uma pessoa sisuda, austera, rígida e extremamente exigente.

De fato, Zila era muito exigente, enquanto cidadã, profissional e como poeta. Cobrava de si mesma e daqueles que estavam em sua volta, uma vez que se dedicava profundamente em tudo com o que se envolvia e, por conseguinte, primava pela excelência.

Entretanto, a leitura dos manuscritos permitiu conhecê-la na sua essência, a pessoa humana que foi, amiga, divertida, íntegra, sensível, solidária e de grande alma, características observadas através da vasta correspondência mantida com Luiz da Câmara Cascudo, Carlos Drummond de Andrade, Geir Campos, Kátia Bento, Maria Alice Barroso, Mauro Mota entre outros. Essas cartas mostram para além de relações institucionais, mas, sobretudo, grandes vínculos de amizade.

Com Luís da Câmara Cascudo, uma grande amizade, fortalecida pelo respeito e carinho mútuo.

Cascudo, menino: […] Pois olhe, eu nem acredito que esteja em vias de terminar um negócio que se chama : LUIS DA CÂMARA CASCUDO: QUARENTA E SETE ANOS DE VIDA INTELECTUAL, 1918-1965). Pois olhe, meu caro Mestre, tenho em frente ao meu nariz CINCO CADERNOS datilografados contando com exatamente OITOCENTAS PÁGINAS DE TEXTO. […] Neguinho, será que você me mandaria isso DEPRESSINHA,? Eu te daria milhões de cheiros (com Licença de minha Madrinha D. Dália) se me fazes tão grande favor. Não sei quando vou a Natal. Mas estou todinha em Natal, pois dia e noite noite e dia estou entre LUÍS DA CÂMARA CASCUDO e sua bibliografia deste tamanho. (MAMEDE, 11 mar. 1968)

Cascudo, por sua vez, referia-se a Zila sempre com apelidos carinhosos – Zilequinha ou Girinha. Esse trecho de carta de Cascudo a Zila quando do falecimento de sua mãe Elídia, demonstra seu devotamento, admiração e amizade.

Minha cara Zila Mamede, todos nós desta sua casa ficamos profundamente penalizados pelo falecimento de sua mamãe. […] Nenhuma palavra de consolo significa o apaziguamento desejado. É uma tragédia que sempre nos surpreende e revolta. […] Peço, em meu nome e de todos nós desta sua casa, aceitar e transmitir aos seus a nossa solidariedade afetuosa. (CASCUDO, 23 jan. 1964).

Para Carlos Carlos Drummond de Andrade, expunha sua fragilidade, sua insegurança quanto à qualidade de sua poesia, ao que este lhe escreveu:

O Gilberto Mendonça Teles, recém chegado de Natal, falou-me de você com admiração e carinho. Gostei que ele fosse mais um a gostar de você. Porque acho que você está precisando de, à força de outros gostarem de você, você estimar bem a sua poesia, tão digna e tão funda. Em sua carta e nas folhas dos poemas, quantas vezes leio a palavra medo, a palavra covardia! Que é isso, menina. Você, essa mulherzinha valente como as armas, e tão sábia no manejar do verso, ficou agora tão encucada que hesita em publicar o que escreveu, e até fala em rasgar? Rasgar coisa nenhuma, passe a limpo, emende, trabalhe sobre, exija ainda mais de si mesma, porém por favor não se entregue a esses ritos desanimados de autonegação. Que falta faz o Manuel para te chamar à ordem. Eu estou chamando, sem a mesma autoridades mas com igual ternura. Gostei muito-muito da parte nova de "Exercício da Palavra" (bom título) em que você joga com ritmos breves e extrema economia verbal. Isto sem desfazer nas outras composições, mais desmanchadas, digamos assim, ou menos visivelmente arquiteturais, pois em todos você é a mesma Zila poeta que sabe o que faz, [...].

Com Maria Alice Barroso, do Instituto Nacional do Livro (INL), expõe uma fragilidade pessoal, quando desabafa:

[…] minha querida amiga, a gente é de carne e ôsso e, de vez em quando sente isso: a dor desperta esse negócio que se chama ser humano e que eu, envolvida nos problemas de trabalho, esqueço, quase sempre: e quando acordo com o corpo arrebentado, paro e penso um pouco, me lembro de que sou gente. Aí, estouro, porque o estouro é sobre mim mesma. […[ conformada em que a “conjuntura” é essa de dificuldades, não de sonhos e fantasias. Se agente acredita em qualquer coisa, essa qualquer coisa faz a gente sofrer: mesmo que seja um negócio fantástico que se chama amor (esse, então …). (MAMEDE, 17 março, 1971).


Destarte, no seu campo profissional como bibliotecária, compreendia as bibliotecas como lugar de desenvolvimento educacional e cultural para fortalecimento de uma sociedade letrada. Para tanto, em favor da organização das bibliotecas públicas do Estado do Rio Grande do Norte, trocava além de ideias, livros e escritos.

Em carta a Maria Alice Barroso, externava o desejo de criar uma biblioteca no município de Nova Palmeira, na Paraíba, cidade onde nasceu, e com ela contribuir para o desenvolvimento de um povo tão sofrido:

Eis aí um pedido “pessoal” meu. Dê uma biblioteca a essa gente. […] nessa última seca o lugar onde nasci não oferecia senão miséria e desolação a todos. Mas o nível de inteligência e o desejo de aprender, e o dom artístico e literário que há em todos os seus habitantes é uma coisa de espantar. […] assumo a responsabilidade do funcionamento, instruindo, mesmo por carta, a minha afilhada. Estou mandando por ela uma série de livros de minha biblioteca particular e um manual de biblioteconomia muito elementar para que ela possa se orientar no mínimo pra a instalação da sala. Você não estaria apenas prestando um serviço público, estaria DANDO UMA GRANDE ESMOLA CULTURAL a um punhado de gente que vive porque DEUS ainda continua sendo barra limpa, apesar de tudo. (MAMEDE,  29 abr. 1971).

Ao mesmo tempo em que buscava criar bibliotecas públicas ou salas de leitura em Nova Palmeira e em todo o Rio Grande do Norte, buscava meios para formar bibliotecários para atuar no Estado e para ampliar os quadros da UFRN.

[…] em vez de brigar comigo mesma eu deveria era continuar teimando e batendo nas portas: foi o que fiz. Quando vi que tudo estava fora de cogitação, no plano federal, apelei para todas as artimanhas de que minha imaginação foi capaz de usar: […] Agora entra o INL: De acordo com o Of. 1584/70, de 16 de dez. 70, o George afirma que o INL mantém um programa de assistência técnica através do qual realiza convênio com as Universidades e pelo qual são atribuídas “bolsas para estágios de alunas de cursos de Biblioteconomia, destinadas a dar treinamento e auxílio financeiro durante o estágio realizado em 4 horas diárias nas bibliotecas existentes na área da Universidade”. Não estaria aí um pouco de solução […].(MAMEDE, 17 março, 1971).


É nessa mesma carta que Zila declina do convite para dirigir a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, evidenciando seu compromisso com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e com as bibliotecas públicas do Estado do Rio Grande do Norte.

[…] não posso sair de Natal, agora, pois como deixaria a Universidade sem ninguém, se uma das outras duas bibliotecárias teve bêbê agora e a outra não tem tempo integral? Se estou atenta com a mudança de governo, a defesa da Biblioteca Pública, etc? Não estou dando uma de heroína, deus me livre. Este ano é um ano difícil, de mudança em tudo, de transição administrativa. Como eu sei que sou bem aceita em todos os meios, no momento não é político que eu saia daqui, pelo menos enquanto Dr. Onofre Lopes estiver na Reitoria. Ele ficou muito feliz com o resultado do curso que dei em S. Luís, com o of. Que recebeu do Reitor de lá e muito “babativo” com sua carta convite dando para (imagine, meu Deus, com que cara?) dirigir a Biblioteca Nacional […]. Olhe, levo tudo isso na brincadeira, mas no fundo, no fundo fiquei tanto surpresa quanto emocionada com o pre-convite-sondagem. Fiquei mesmo […]. (MAMEDE, 17 março, 1971).


Preocupada com o acesso ao livro e a leitura, defendia um sistema de relações de doação e permuta de livros conforme pode ser demonstrado em trecho de carta a Katia Bento:

[…] Se você quiser mandar livros para as minhas 150 bibliotequinhas não se acanhe […] Vale tudo: tenho bibliotecas a todos os níveis: desde a Biblioteca Pública Câmara Cascudo, a única pública para uma cidade de 500 mil habitantes, e tenho 150 nos municípios do RN: desde pequenas salas de leitura até bibliotecas de 50 e 60 mil volumes. (MAMEDE, 26 set. 1983, p. 3).


Mas as preocupações de Zila não se restringiam somente a fome intelectual, mas, sobremaneira, com a fome do nordestino que vivia as dores de um longo período de seca. Nessa carta a Kátia Bento, agradece a ajuda financeira para atenuar a fome de alguns poucos:

[…] Meu aniversário rendeu comida para, pelo menos, 6 famílias. Fiquei muito contente: foram presentes régios, esses que recebi aos outros. Muito grata pela sua colaboração. Vou comprar seus 15 mil todo de leite que é o mais caro e o que menos tenho recebido. […] Sei que não resolve: é muita gente faminta e muitas cidades sendo saqueadas, sobretudo por mulheres famintas que os donos do poder não inscrevem nas frentes de trabalho. A situação está se tornando insuportável e quase sem controle das autoridades. Acho que a fome pode gerar a pior das guerras civis. E não será por falta de alerta. (MAMEDE, 26 set. 1983, p. 1).


Também em carta a Katia Beto, Zila demonstra todo seu amor e orgulho em ser nordestina:

[…] Andei viajando pro sertão de seca braba: passei os dias de carnaval na fazenda de minha irmã/cunhado, em Acari, RN […]. Curti o sertão como sempre faço: com uma paixão doida por esta terra que nada no mundo me faz abandonar. Eu sou nordestina até a raiz da unha, para não falar na raiz do cabelo que é bem de raiz, mesmo. Feita esta autobiografia carnavalesca respondo sua carta. (MAMEDE, 20 fev. 1983, p.1).


Como se vê, Zila aos poucos acumulou papéis e passou a existir através deles. Assim, com suas cartas, sem querer, escreveu a sua autobiografia, pois como enfatiza José Montelo no prefácio do livro de Gilberto Freyre (1978):

[…] as cartas […] constituem documentos fundamentais de [uma] futura biografia. Elas são mesmo, de certo modo, a sua autobiografia fragmentada, e que ela vai compondo sem dar por isso. Se pudessem ser reunidas na sua totalidade, corresponderiam ao livro íntimo, palpitante de revelações espontâneas, com algumas de suas confidências mais preciosas. Toda a sua vida estaria ali, refletida no espelho epistolar, permitindo-nos discernir o homem verdadeiro na personagem em que este se transfigurou.


Desse modo, os pequenos fragmentos transcritos neste ensaio mostra Zila em sua essência. Os estudiosos que por ventura tenham interesse de conhecer um pouco mais do universo da bibliotecária e poeta poderão fazê-lo através da leitura de seus documentos pessoais, cartas e livros disponíveis na Sala Zila Mamede, localizada no Setor de Coleções Especiais da BCZM. Nessa sala sobrevive a memória de Zila Mamede.


Fonte: Acervo da BCZM


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