Sistema de bibliotecas da UFRN
Notícia
ZILA MAMEDE - 90 anos 17/09/2018
Zila Mamede e Câmara Cascudo

Ela foi quase freira, foi contadora, jornalista, professora, bibliotecária. Abdicou de ser poetisa para ser simplesmente poeta, como gostava de ser chamada, indiferente à flexão de gênero do substantivo. Essas foram apenas algumas das "qualificações" ocupacionais para identificar Zila da Costa Mamede, patrona desta biblioteca, que, se ainda estivesse materialmente entre nós, faria 90 anos no dia 15 de setembro de 2018. Ao longo de sua vida e em todas as atividades profissionais desenvolvidas, ela foi essencialmente "uma mulher entre livros", como bem a retratou Marize Castro, ao escolhê-la como tema da pesquisa de mestrado.

 

A paraibana de origem, que nasceu em 1928, em Nova Palmeira (PB), inquietava-se quando olhava sua identidade, por sentir-se potiguar de coração. Aos seis anos, mudou-se para Currais Novos (RN) e aos 14 anos para Natal (1942), quando seu pai, Josafá Gomes da Costa Mamede, veio trabalhar como mecânico na Base Aérea de Parnamirim em decorrência da II Guerra Mundial. Alfabetizou-se aos 3 anos, sob a luz da lamparina, ouvindo Olavo Bilac até adormecer pela voz de sua mãe. Devorava cordéis; era apaixonada pelo pavão misterioso e seguiu os conselhos do padrinho, Francisco Dantas, para ler tudo o que passasse pelas mãos. Nasceu assim seu amor pela leitura. 

 

De criança literata a uma intelectual renomada, profissional dedicada e batalhadora: a Zila foi para o Rio de Janeiro se tornar bibliotecária e na Biblioteca Nacional foi estagiária, cuja vaga fora recomendada por ninguém menos que Manuel Bandeira, segundo a amiga e colega de profissão, a bibliotecária Gildete Moura de Figueiredo. De lá, voos ainda maiores, estagiando na Biblioteca da Universidade de Syracuse, na Library of Congress e no Washington International Center, todas nos Estados Unidos.

 

A partir do convite do governador do Estado da época, em 1954, para responder pela biblioteca do Instituto de Educação do RN, hoje Atheneu, teve inicio uma longa trajetória profissional que permeou toda a vida de Zila. Em 1959, foi designada para presidir o "Serviço Central de Bibliotecas" da recém criada Universidade do Rio Grande do Norte. Surgia, desse modo, uma rede organizada e uniformizada com o mesmo padrão técnico que, mais tarde, configuraria o Sistema de Bibliotecas (SISBI). A história de Zila, como se vê, se mescla e se confunde com a própria história da BCZM e da UFRN.

 

Além de escrever em jornais locais e de outros estados como Jornal do Comércio (PE), O Povo (CE), Tribuna do Norte e Diário de Natal, na década de 1950 deu início à profícua produção literária de que temos conhecimento. Não parou por aí, pois publicou em jornais do Rio de Janeiro (O Jornal, Diário de Notícias, Jornal de Letras, Correio da Manhã, Diário Carioca, Letras e Artes) e de São Paulo (O tempo e Folha da Manhã). Tornou-se conhecida nacionalmente e considerada partícipe da Geração Pós-45. A poesia, que já grassava em seus muitos textos, emergiu alada, em breve voo entre Natal e João Pessoa, livre território propício à imaginação. Foi composição aquática, entre mergulhos nas ondas de Areia Preta, de onde surgiu inteira e madura a "Canção do Sonho Oceânico", considerada por estudiosos o primeiro poema da Zila; um presságio poético sobre seu encanto e entrega ao mar. Anos depois (1991), o poema foi transformado em tema de Escola de Samba pela Imperatriz Alecrinense.

 

Ela foi de tudo um pouco, é verdade, mas nunca deixou de ser a mulher forte e batalhadora que misturou sertão e mar. É com orgulho que imortaliza a Biblioteca Central da UFRN com seu vetusto nome, em homenagem a tantos serviços prestados quando a obra era mais necessária, e é com o mesmo orgulho que, neste mês de setembro, quando comemoraríamos seus 90 anos, celebramos sua vida.

 

No período de 14 de setembro a 15 de outubro de 2018 teremos em vários ambientes de nossa biblioteca a exposição "Zila Mamede: a poeta bibliotecária" composta por 90 de suas poesias. Para a mostra, um cuidadoso material gráfico ilustra a minuciosa pesquisa realizada dando alma a esse abraço de aniversário. Muitas fontes, muita leitura e muito empenho de diversos profissionais para trazer uma exposição que representasse a grandiosidade da homenageada. Assim, eternizando sua lembrança com muito cuidado e bom gosto, podemos senti-la cada vez mais presente. Aproveite a carinhosa homenagem e conheça mais sobre uma das maiores intelectuais do nosso estado, orgulho de nossa casa.

 


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