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Notícia
E-book realiza novas leituras em torno dos sertões 18/01/2022
e-book Intelectuais no Sertão
(Foto: Portal da UFRN)

 

Kayllani Lima Silva - Agecom

 

Na busca pela refutação de estereótipos e novas leituras em torno dos sertões, o e-book Intelectuais no Sertão resgata o papel do Clube Romeiros do Porvir na construção identitária do Cariri e, sobretudo, na cidade do Crato. O trabalho é fruto do Mestrado em História dos Sertões (MHIST), vinculado ao Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres), e foi lançado no dia 28 de dezembro de 2021. “Acho que uma das chaves pra gente entender que o sertão pode ser plural é compreender que nesses sertões houve várias atividades que fazem com que a gente conteste a ideia de que o sertão é o lugar atrasado, da fome, da seca e da barbárie”, afirma Johnnys Jorge Gomes Alencar.

 

Historiador e responsável pela pesquisa, ele esclarece que o Clube Romeiros do Porvir era uma agremiação literária constituída majoritariamente por homens vindos de famílias ricas e com o mesmo desejo: discutir e escrever literatura. Atuando a partir do final do século XIX até aproximadamente 1909, os intelectuais almejavam espalhar que o Cariri também era espaço de movimentações artísticas. Para transmitir esse caminho ao leitor, o livro atravessa três capítulos principais, resgatando desde as formas de desenvolvimento da intelectualidade até o significado de sertão.

 

Ao encarar os resultados do trabalho, Johnnys considera primordial o entendimento de que o sertão nunca foi um lugar isolado. Pelo contrário, as formas complexas de relação e organização social já estavam presentes nesse ambiente no final do século XIX. Além disso, o historiador enxerga a pesquisa como sinônimo de resistência e defende sua circulação em diferentes espaços, a fim de permitir novas leituras plurais sobre o sertão e sua trajetória. “O sertão não é apenas o que está nas fotografias quando a gente dá um Google com a palavra sertão, não é apenas aquilo. Tem práticas civilizadas e letradas desde muito tempo”, argumenta o autor.

 

Embora o clube de literatos tenha atuado na promoção da cultura no Cariri, Johnnys observa que eles buscavam separar o local do sertão. Isso porque, diferente dos arredores que sofriam com a seca severa, a região se destacava por seus recursos hídricos, clima diferenciado e noção de civilização. “Eles reafirmaram, a partir do sertão, os preconceitos contra o território sertanejo. Fizeram isso a partir do momento em que tentaram distanciar o Cariri do sertão. Porque ao dizer que o sertão era atrasado e o Cariri era adiantado, o Cariri não é sertão”, enfatiza.

 

Quanto ao título da obra, Intelectuais no Sertão, o autor não deixa passar despercebido. Defendendo a ideia de que não existe intelectual fora de uma estrutura de pensadores, ele explica que os romeiros estabeleciam relações organizadas em prol da execução dos seus bens culturais e, portanto, também se enxergavam como produtores de conhecimento. “Existia essa noção de intelectualidade porque eles acreditavam que estavam ajudando a construir de fato uma cidade ao disponibilizarem a biblioteca para acesso público, exibirem peças teatrais, cinema e ao manter um jornal (A liça) publicando semanalmente notícias de interesses da cidade”, afirma.

 

Para construir a pesquisa, levando em conta o cenário pandêmico, muitos desafios foram superados. O principal deles está na limitação de fontes de investigação como documentos, arquivos públicos, bibliotecas e registros privados. Com a impossibilidade de visitas presenciais para apurar mais dados, o estudo se limitou às informações disponíveis. Já no campo metodológico, o problema é inerente aos fatores que permeiam a produção de conhecimento na história. “A gente nunca consegue chegar de fato a uma totalidade de informação para fazer um texto totalmente seguro. Então, nesse meio do caminho, sempre existem essas dúvidas no percurso da escrita”, ressalta Johnnys.


Fonte: Portal da UFRN


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