Carta do Grecom relembra trajetória de Edgar Morin e anuncia conferência anual
A morte do filósofo francês Edgar Morin, em 29 de maio, aos 104 anos, levou pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) a revisitar uma relação construída ao longo de mais de três décadas. Em carta divulgada pelo Grupo de Estudos da Complexidade (Grecom/UFRN), a professora Ceiça Almeida presta homenagem ao pensador, relembra suas cinco passagens por Natal, entre 1998 e 2012, e destaca a influência de sua obra na formação de pesquisadores e grupos de estudo vinculados à Universidade.
Autora da carta e coordenadora do Grecom, Ceiça afirma que conheceu Morin há mais de 35 anos, durante seu doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), quando teve contato com um dos volumes de O Método. Segundo a pesquisadora, as ideias do filósofo deram origem a uma relação intelectual que, mais tarde, se transformaria em convivência, amizade e colaboração acadêmica.
A professora recorda que a aproximação entre Morin e a UFRN ocorreu a partir da criação do Grupo Morin, em 1992, posteriormente transformado em Grecom. Ao longo dos anos, o grupo passou a difundir conceitos ligados à complexidade e à transdisciplinaridade, influenciando pesquisas, dissertações e teses desenvolvidas nos programas de pós-graduação da Universidade.

Na carta, Ceiça recupera episódios marcantes das visitas do pensador ao Rio Grande do Norte. Um dos relatos remete à passagem pelo Forte dos Reis Magos, quando Morin, após conhecer aspectos da história local, subiu à muralha e declarou que Natal era a ‘capital do pensamento complexo’. A lembrança já havia sido registrada em reportagens e depoimentos produzidos durante as comemorações de seus 100 anos de vida, ocasião em que pesquisadores da UFRN destacaram o papel da cidade e do Grecom na difusão internacional de suas ideias.
A homenagem também relembra a segunda visita do filósofo a Natal, em 1999, quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UFRN e participou das celebrações pelos 400 anos da capital potiguar. Na ocasião, segundo Ceiça, Morin relacionou sua presença na cidade a personagens históricos que mantiveram vínculos entre Natal e Paris. O filósofo também recordou as escalas que fazia no antigo Aeroporto Augusto Severo durante viagens da rota aérea entre a Europa e a África.

Outro momento destacado pela professora ocorreu em 2003, durante as comemorações dos dez anos do Grecom. Naquele ano, Morin participou do simpósio Experiências de Complexidade no Brasil e inaugurou a escultura Casa Mãe-Terra, instalada no Parque das Dunas. Ceiça relata que o filósofo pediu para entrar sozinho na obra e permaneceu cerca de 15 minutos em seu interior. Ao sair, afirmou que a experiência o fez recordar sua mãe, Luna, falecida quando ele ainda era criança.
A carta recorda também a conferência O destino da humanidade, realizada em 2010 na Praça Cívica da UFRN. Segundo o texto, cerca de 11 mil pessoas acompanharam a apresentação, que reuniu professores da rede pública, estudantes e pesquisadores de diferentes estados. Ceiça relata que Morin optou por falar sem tradução e permaneceu por mais de uma hora diante do público.
A última visita ocorreu em 2012, durante as comemorações dos 20 anos do Grecom, no evento Tributo a um Pensamento do Sul. Na ocasião, realizada na Escola de Música da UFRN, o filósofo voltou a discutir temas ligados à complexidade, à cultura e à produção do conhecimento.

Ao longo de sua trajetória, Morin estabeleceu uma relação singular com a universidade potiguar. Em reportagem publicada pela UFRN quando completou 100 anos, pesquisadores ligados ao Grecom, ao Mythos-Logos e a outros grupos de pesquisa afirmaram que sua presença contribuiu para consolidar Natal como um dos polos de difusão do pensamento complexo no Brasil. A influência do autor também alcançou a pós-graduação da instituição, que passou a desenvolver pesquisas inspiradas em suas formulações sobre conhecimento, educação e condição humana.
Na UFRN, a morte de Morin também gerou manifestações em diferentes espaços acadêmicos. O Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia (PPGEM) e o Grupo de Pesquisa Marginália publicaram homenagens em seus perfis no Instagram, destacando a contribuição do pensador para a produção científica e para os estudos da complexidade. Os grupos também resgataram uma entrevista concedida por Morin ao programa Xeque-Mate, da TV Universitária da UFRN, em 2010, conduzida pelo professor do Departamento de Comunicação da UFRN, Ruy Rocha. O conteúdo voltou a circular entre pesquisadores, professores e estudantes como registro de uma das passagens do filósofo pela Universidade.
Na despedida, Ceiça afirma que a morte do pensador provoca tristeza entre os integrantes do Grecom, mas reforça o compromisso de preservar e desenvolver seu legado intelectual. Como parte dessa homenagem, o grupo anunciou a criação da Conferência Anual Edgar Morin, iniciativa que pretende manter vivo o diálogo com as ideias do filósofo francês e com a relação construída entre ele e a UFRN ao longo de mais de três décadas.