Com participação da SEDIS, projeto de extensão digitaliza acervo raro da Revista Cigarra e resgata a memória de Natal dos anos 1920
Reprodução de capas da Revista Cigarra, publicação que circulou em Natal entre 1928 e 1930. Foto: Cedida por José Correia
Por Larissa Bezerra – Assessoria de Comunicação da SEDIS/UFRN
Como era Natal no final da década de 1920? As páginas da Revista Cigarra ajudam a responder a essa pergunta com registros do cotidiano, da vida social, do comércio e das transformações urbanas da capital potiguar. Publicada entre 1928 e 1930, a revista teve cinco fascículos que, quase um século depois, ganharam uma versão digital por meio do Cigarra Digital, projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolvido em parceria pela Secretaria de Educação a Distância (SEDIS), pelo Departamento de História (DEHIS) e pela Biblioteca Setorial Veríssimo de Melo, do Museu Câmara Cascudo (MCC).
A iniciativa foi criada para preservar a coleção e facilitar a consulta ao conteúdo. Com a digitalização dos exemplares e sua disponibilização no Repositório Institucional da UFRN, o projeto permite que estudantes, pesquisadores e demais interessados conheçam a publicação sem precisar manusear os documentos originais.
A Revista Cigarra circulou em um período de mudanças em Natal, marcado pela expansão urbana e pela reestruturação viária de bairros como Petrópolis e Tirol. Sob influência do modernismo, apresentou uma proposta editorial diferenciada em uma cidade que, segundo informações levantadas pelo coordenador do projeto, tinha cerca de 35 mil habitantes na época. Sua produção também contou com o apoio do governo de Juvenal Lamartine e com patrocínios da indústria e do comércio locais.
Os seus fascículos trazem matérias jornalísticas, colunas sociais, artigos sobre cinema e informações sobre negócios locais, entre outros registros. O conjunto oferece um retrato de diferentes aspectos da sociedade natalense e constitui uma importante fonte de investigação sobre a capital potiguar.
Da pesquisa à criação do projeto
A história do projeto Cigarra Digital está ligada, inicialmente, ao interesse de José Correia Torres Neto, técnico em Assuntos Educacionais da SEDIS e coordenador da iniciativa, pela trajetória da revista. Desde a década de 1980, quando teve contato com o livro Erasmo Xavier: o elogio do delírio, de Rejane Cardoso, ele buscava conhecer melhor a publicação e seus idealizadores, Aderbal França e Erasmo Xavier.
Esse interesse acompanhou sua trajetória acadêmica. Em 2023, durante o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN, José investigou os percursos editoriais de cinco revistas de arte e cultura do Rio Grande do Norte, mas ainda não havia conseguido localizar a Revista Cigarra.
A situação mudou em 2025, quando encontrou a coleção completa na Biblioteca Setorial Veríssimo de Melo, do Museu Câmara Cascudo. Ao consultar os exemplares, identificou um material relevante para pesquisas sobre a história de Natal e viu a possibilidade de transformar uma busca antiga em uma proposta de digitalização.
“Foi nesse momento que pensei, por meio de um Projeto de Extensão, digitalizar toda a coleção e disponibilizar no Repositório Institucional da UFRN”, relata.
A proposta foi aprovada pela Pró-Reitoria de Extensão no início de 2026, e seu lançamento ocorreu em 23 de setembro também deste ano, durante a programação da 20ª Primavera dos Museus, no Museu Câmara Cascudo.

Anúncio de lançamento do Projeto Cigarra Digital, responsável por digitalizar as cinco edições da Revista Cigarra. Foto: Cedida por José Correia
Um trabalho coletivo de preservação
O processo de digitalização exigiu uma solução cuidadosa para não comprometer a integridade do acervo. Como os exemplares estavam encadernados por costura, a equipe descartou o uso de scanners convencionais – o que exigiria desmontar os volumes – e optou pela captura fotográfica das páginas.
Segundo José Correia, os fascículos estavam bem conservados, com textos e imagens legíveis, embora o papel apresentasse a coloração amarelada característica do tempo. Ainda assim, o manuseio exigiu atenção redobrada para evitar danos aos documentos envelhecidos.
O trabalho envolveu profissionais de diferentes áreas. Além de José Correia, pela SEDIS, participaram Cirlene Maciel de Oliveira, bibliotecária da Biblioteca Setorial Veríssimo de Melo; Íris Álvares Dantas, do Departamento de História; Lucas Almeida Mendonça, designer; Anderson Gomes do Nascimento, arte-educador e bolsista de História; e Cristinara Ferreira dos Santos, professora da rede estadual de ensino e revisora. A publicação conta ainda com a apresentação de Rejane Cardoso Serejo Gomes e o prefácio de Vicente Alberto Serejo Gomes.
A colaboração entre esses profissionais permitiu organizar, reproduzir e preparar o acervo para consulta digital. Além disso, a iniciativa reforça a importante atuação da UFRN em projetos de extensão, com destaque para o papel realizado pela SEDIS em aproximar educação, tecnologia e produção de conhecimento.
Acesso à memória da cidade
Os cinco fascículos da Revista Cigarra estão disponíveis gratuitamente no Repositório Institucional da UFRN. O acesso on-line facilita a consulta ao material e seu uso em pesquisas acadêmicas e atividades educativas, especialmente nas áreas de História, Comunicação, Design e Educação.
A experiência também incentiva novas ações voltadas à preservação da memória cultural do estado. De acordo com o coordenador, outro projeto de extensão já está em andamento na UFRN, com foco na digitalização de revistas culturais do Rio Grande do Norte e na disponibilização desse material ao público.
Como acessar?
A coleção completa da Revista Cigarra pode ser consultada gratuitamente no Repositório Institucional da UFRN.