Pesquisa do PPGDem evidencia a racialização na cidade de Natal
Um artigo publicado no periódico científico GeoTextos pelos pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da UFRN, José Anderson Farias da Silva Bomfim (doutorando) e Silvana Nunes de Queiroz (docente), com a coautoria do pesquisador Antonio Alfredo Teles de Carvalho, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), identificou a sobreposição entre a concentração da população preta e parda, o adensamento domiciliar e a infraestrutura precária na capital potiguar.
Os autores realizaram um mapeamento sociodemográfico com os dados do Censo Demográfico 2022 para Natal (RN) e identificaram que os bairros com maior infraestrutura concentram residentes autodeclarados brancos e domicílios com menor número de moradores. Em contraste, as regiões periféricas reúnem a maioria da população preta e parda. Nessas áreas, identifica-se maior prevalência de domicílios com quatro a seis moradores, caracterizando o adensamento habitacional.
“A importância da pesquisa está em demonstrar como os diferentes grupos populacionais se distribuem pelo território e em evidenciar que essa distribuição não ocorre de forma aleatória, mas está relacionada a diferentes fatores sociais e às formas de produção e organização do espaço urbano”, declarou José Anderson, coautor do artigo. Além disso, destaca ele, o estudo permite identificar se determinados grupos estão mais concentrados em áreas distantes das regiões centrais, o que pode representar maiores dificuldades de acesso a oportunidades, serviços e infraestruturas urbanas. “Dessa forma, a pesquisa contribui para compreender como as desigualdades sociais também se expressam espacialmente e como o lugar de residência pode estar relacionado às condições de vida da população”, pontua.
A distribuição da população na cidade de Natal (RN) reflete uma organização territorial marcada por divisões socioespaciais. Os dados do Censo Demográfico de 2022 evidenciam que a segregação urbana na capital potiguar ultrapassa fatores econômicos, apresentando uma dimensão racial na ocupação do território. As estatísticas demonstram que áreas centrais e periféricas abrigam perfis demográficos distintos, indicando um processo de estratificação urbana.
A disparidade territorial reflete-se na infraestrutura básica. Os dados revelam que setores censitários com mais de 70% de população preta e parda apresentam índices de até 86% de domicílios com uso de fossa rudimentar ou buraco para esgotamento sanitário. Nas áreas centrais, onde há predominância de população branca, esse percentual é inferior a 11%.
“As taxas de alfabetização seguem o padrão de distribuição geográfica e racial. A privação educacional concentra-se nos territórios periféricos, consolidando um cenário em que a vulnerabilidade social e a ausência de infraestrutura convergem para os mesmos grupos populacionais. O território atua, portanto, como um reprodutor das divisões sociais. Diante de tais evidências, cabe questionar quais políticas públicas habitacionais e de saneamento são necessárias para reverter a reprodução histórica dessa segregação territorial”, destaca José Anderson.
Fonte: CCET/UFRN. Texto: Paulo Pinheiro; Edição: Hellen Almeida; Revisão: Beatriz de Azevedo.